Olá, amiguitos! Aqui quem vos escreve é o paladino blogueiro da Justiça, o grilo falante da humanidade, aqueles que vocês amam odiar: Jojó da Babá.
Estou aqui a convite de Pablo para dar uma agitada no blog de minha queridíssima amiga, Juju Paracundê.
Pablo solicitou que eu entrasse com todo respeito na parada.
Como vocês sabem, nesse negócio de penetrar a alma feminina eu sou bom.
A frase anterior, por exemplo, tem um duplo sentido de cunho sexual. E, no entanto, não o explorei. Prova de que, com cuspe e jeito, a gente vai dar um up na bagaça.
Isto é um preâmbulo que não interessa.
O texto, meu, mas travestido de Juliana, vem abaixo.
Divirtam-se. Ou tentem.
***
"Quando o carteiro chegou
E o meu nome gritou
Com uma carta na mão
Ah! De surpresa, tão rude,
Nem sei como pude
Chegar ao portão..."
Olááááááááááááááááááá, crianças!
Muita gente não sabe, mas eu e Juliana somos amigos há muitos e muitos anos. Desde praticamente crianças.
July, além de uma pessoa iluminada e que, ainda hoje, ensina muito da vida pra gente, me apresentou a uma paixão que me acompanha e há de me acompanhar até o final dos tempos: as cartas.
Quando vim morar em Salvador, com 13 ou 14 anos, trocávamos cartas (sim, queridos, ainda não havia e-mail e essas coisas chiques e internéticas que hoje há). Era um frisson. De semana em semana, ela recebia um monte de papéis amarfanhados de minha parte e me mandava fotos, historinhas e notícias dos amigos distantes, além, claro, das fofocas da galera.
Tudo isso, esse pacote de informações, essa lufada de ar fresco, estes excertos de uma vida que eu havia deixado pra trás, me chegavam semanalmente em elaborados envelopes coloridíssimos, com desenhos e recortes e tudo mais.
Era muito divertido.
E era com muita ansiedade que eu aguardava as cartas de July. Como eu disse, o capricho nas historinhas, nos envelopes, sempre decorados com gracinhas, com piadas privadas, era extremo (e ríamos muito imaginando a cara do povo no correio vendo aquelas maluquices todas). Eu, jovem e sozinho numa cidade grande e estranha, maltratava cada naco de unha com os dentes aguardando o sorriso de July em cada cartinha.
Mais ou menos do mesmo modo como vocês, hoje, aguardam os posts dela.
Ou melhor dizendo: não do mesmo modo, porque carta é diferente de um post. Não apenas no formato.
Carta é uma coisa que se elabora com um outro espírito.
Há uma certa finesse em sentar-se à mesa, tomar uma folha de caderno e se pôr a escrever de si, à mão, para outra pessoa. O tempo de elaboração faz com que se reformule termos, com que se sedimentem pensamentos, com que ideias se enriqueçam.
Mas o papel tem lá a sua crueldade, também, em não permitir que se apague nada escrito nele.
Marcado de maneira indelével, o papel destas cartinhas registra ainda hoje uma fase muito importante de minha vida.
Depois, naturalmente, o tempo foi passando e nossa correspondência foi se aplainando. Muito provavelmente eu comecei a rarear nas respostas, ou a negligenciar o ritmo de responder, e a coisa foi morrendo.
Mas o vício estava instalado: eu me tornei um apaixonado por cartas.
O tempo passou, me adaptei à cidade grande e já não esperava cartas de July: queria, afoito, adolescente, tomar a vida em minhas mãos.
***
Logo depois, começaram a surgir em minha vida as cartas apaixonadas.
Tanto minhas para as primeiras namoradas quanto delas para mim. Quanto ao que escrevi, não sei mais: é bastante provável que muitas destas mensagens, escritas em apaixonadas noites insones, tenham ido parar na lata do lixo, rasgadas, feitas em picadinho (quer algo mais catártico - e emblemático - do fim de um relacionamento que fazer em pedaços aquelas promessas de amor eterno que não se realizaram?).
Mas das cartas que recebi, sei bem: em envelopes cor-de-rosa, envolvendo papéis rebuscados e perfumados, promessas de amores que nunca iriam se acabar. Cada carta era lida, relida e dissecada milhares de vezes, e eu buscava, em cada espaçamento, em cada derrapada de caneta, o sentido oculto daquilo, o sentimento que movia cada traço. Na caligrafia sinuosa, delicada e sensual de cada carta que recebi de uma mulher na vida, está muito de mim, também.
Talvez por isso nunca rasguei uma carta de amor que recebi na vida.
Aprendi a respeitar o que elas carregam: o devotamento, mesmo que passageiro, de uma pessoa por outra.
Não sou uma pessoa passadista, nostálgica ou apegada às coisa do passado. Adotei com entusiasmo o icq, os e-mails, e tudo o mais. Mas guardo uma certa saudade do tempo em que uma carta mudava toda a sua vida.
E você, querido leitor, já teve o prazer de receber - e enviar - uma carta para alguém?